Termoelétrica em Peruíbe: Polêmica e insegurança!

Reportagem Especial por Sidney Cley

• O projeto – O projeto para construção de uma usina termelétrica e um terminal offshore de recebimento de gás natural com um navio fundeado a 10 km da costa do município veio a tona nos últimos dias.
Segundo Alexandre Chioffetti, da Gastrading Comercializadora de Energia S.A, a expectativa é que a ‘Usina Termelétrica Atlântico Energias’ – UTE seja instalada no entorno do Jardim São Francisco e Caraminguava e tenha capacidade de 1,7 GW para fornecer energia para as nove cidades da Baixada Santista.
Mesmo com o projeto em fase de licenciamento ambiental, pois depende do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), ambos exigidos pela Cetesb, e ainda de Audiência Pública a ser realizada pelo Conselho Estadual de Defesa de Meio Ambiente em Peruíbe e nas cidades da Região, há grandes movimentos de protestos por moradores, ONGs e grupos ligados ao meio ambiente, que demonstraram insegurança com o empreendimento. Especialistas alertam para a quantidade de gases que serão lançados na atmosfera e temem a piora na qualidade do ar de Peruíbe.
Acompanhe a nossa conversa com os consultores, Dra. Maria Cristina, Advogada e Consultora em Políticas Públicas Ambientais. E com o Dr. Alexandre Ricardo Machado, Doutorando em Direito Ambiental Internacional e Consultor Estratégico de Negócios em Petróleo e Gás.

Dra. Maria Cristina, Advogada e Consultora em Políticas Públicas Ambientais.

Os empresários afirmam que a usina termelétrica a gás tem baixa emissão de particulados, não produz emissão de fumaça preta, defendendo assim sua alta eficiência. Isso é verdade?
Consultores – Em Parte sim, é que o gás natural, em princípio, é isento de enxofre e de cinzas, o que torna dispensável as custosas instalações de dessulfurização e eliminação de cinzas que são exigidas nas térmicas a carvão e a óleo. Por outro lado, tem como principais poluentes gerados no processo de combustão o monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NO2), hidrocarbonetos (HCs) e dióxido de carbono (CO2). Vale lembrar, que a presença destes gases na atmosfera contribui para a formação de oxidantes fotoquímicos e chuva ácida (mínima, mas presente), bem como para a intensificação das mudanças climáticas, dado que o CO2 e os HCs estão entre os principais gases que causam o efeito estufa. O problema ambiental mais acentuado nas instalações a gás natural, ainda é o de emissão de óxidos de nitrogênio. Quanto a sua “alta eficiência”, dependerá do modelo a ser implantado – Turbina a Gás em Ciclo aberto; Caldeira de recuperação de calor em Ciclo combinado; Turbina a Vapor – sendo considerada uma das melhores em termos de eficiência a termoelétrica a gás natural de ciclo combinado (Combined cycle power stations – CCPS’s).
A Dra. Maria Cristina destaca que uma termoelétrica necessita de enormes volumes de água para a refrigeração de seus equipamentos e por causa disso ela sempre é instalada perto de grandes mananciais, como rios e lagos. A termoelétrica pega a água fria do rio e a devolve muito quente ao caudal, cuja água então aquecida é capaz de destruir a sua fauna e flora.

Dr. Alexandre Ricardo Machado, Doutorando em Direito Ambiental Internacional e Consultor Estratégico de Negócios em Petróleo e Gás.

A empresa está divulgando o impacto positivo para a região, mas, na verdade, no caso da instalação da usina, quais serão os impactos ambientais, sociais e econômicos para a Cidade?
Consultores – Quanto aos impactos ambientais são os já discutidos, como a emissão de gases de efeito estufa e chuva ácida (menor que a do carvão, porém significativa), o resfriamento de turbinas e da água utilizada no sistema (dependendo do modelo de usina adotado), custo do combustível (Gás), oscilante no mercado (atrelado ao petróleo, o Brasil ainda não é autossuficiente na produção de gás), e os riscos inerentes a acidentes com gás. Já os impactos sociais e econômicos, podem ser os mais diversos, desde melhora na arrecadação tributária municipal, estadual e federal, aumento na oferta de empregos (apesar da mão de obra ser pequena, e tecnicamente diferenciada) e uma suposta estabilidade energética para região.

Há exemplos destes impactos negativos em outras cidades?
Consultores – Os impactos podem existir, com suas peculiaridades, alguns maiores e localizados e outros menores… esses impactos são por acumulação. Exemplo Usina Euzébio Rocha em Cubatão/SP, os reflexos foram sentidos na Serra do Mar e no Rio Cubatão de forma longitudinal e acumulativa com outras atividades poluidoras do município. Pode-se demorar anos para senti-los, como as mudanças climáticas e qualidade do ar, como semanas com comprometimento da pesca em áreas de troca de calor perto da usina. Eu enumero Cubatão e Santos mesmo no caso da Ultracargo. (Um incêndio de grandes proporções atingiu um parque de tanques da empresa Ultracargo na cidade de Santos/SP, em 2 de abril de 2015) Cubatão tem a usina e Santos os terminais petroquímicos. Acidentes também podem ocorrer e geralmente as empresas não sofrem a punição merecida por contratar seguros altos.

Muito se fala em energias renováveis, segundo pesquisas, o Brasil produz 1% do que pode em energia eólica. São 7 Gigawatts. A estimativa é de um crescimento de 200%, 80 países já construíram suas instalações eólicas. Na sua opinião, porque o Brasil segue na contramão deste recurso?
Consultores – Acredito que o Brasil já não mais segue na contramão, o setor eólico já é um dos mais promissores mercados do Brasil, conta hoje com 10,6 GWs, com perspectivas para o final de 2017 de 13 GWs de capacidade. Em 2015 fomos a 4ª nação que mais cresceu em termos de energia eólica no mundo, conforme relatório anual do Global Wind Enery Council (GWEC). A energia eólica representa hoje cerca de 7% da matriz elétrica, suportando em determinados momentos até 10% de toda a carga do sistema interligado nacional. Vale destacar, que em dezembro de 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), apresentou a ampliação das linhas de crédito de longo prazo aos financiamentos em energias renováveis e eficiência energética para as empresas brasileiras, disponibilizando cerca de 750 milhões para o setor eólico.
A Dra. frisa que o primeiro impacto que se nota está relacionado com a chegada da empresa construtora ao local da obra e a montagem do canteiro. O aumento súbito da população pelos trabalhadores acarreta vários problemas como um acréscimo na produção de lixo e esgoto sanitário, aumento na circulação de máquinas pesadas que danificam as vias e modificam as características do trânsito local, sem descartar o possível crescimento da violência urbana, entre outros. A supressão da vegetação nativa, para ocupação da área, é também um grave problema.
Para essa questão social, há necessidade do poder público suprir toda esta demanda. Por outro lado, há um crescimento das atividades econômicas por conta desse incremento populacional. Finaliza a Dra. Maria Cristina.

O que diz a Gastrading:

Em meio a polêmica da usina, ouvimos também o diretor-presidente da Gastrading, Sr. Alexandre Chioffetti, ele garante que o projeto Verde Atlântico Energias foi elaborado em estrito atendimento a todas as normas e legislação vigente, apresenta viabilidade técnica e ambiental. Confira:
Sr. Alexandre Chioffetti,
Diretor-presidente da Gastrading.

No incentivo de termoelétricas, o governo Brasileiro vem divulgando o gás natural como energia limpa. É energia limpa de fato, ou ele é apenas 20% menos poluente do que o petróleo?
Alexandre Chioffetti – O petróleo tem várias aplicações, assim como o gás natural, tanto para geração de energia, como para usos industriais. Normalmente, o uso do petróleo se dá depois do refino, seja na forma de diesel, ou outro tipo de óleo, cada caso terá um tipo e quantidades de emissão. Sem especificar o tipo de óleo utilizado, não dá para afirmar os percentuais, de maneira genérica, pode-se afirmar que o gás natural gera energia de maneira mais eficiente e limpa do que geração a óleo.

A empresa afirma que a usina termelétrica a gás tem baixa emissão de particulados, não produz emissão de fumaça preta, defendendo assim sua alta eficiência. Como é esse processo?
Alexandre Chioffetti – Processo de geração de energia a Gás Natural em Ciclo Combinado com Vapor.

Para cada GWh produzido com gás natural, qual a emissão de CO2 para a atmosfera?
Alexandre Chioffetti – Estimado 0,335 tco2/MWh.

Uma termoelétrica necessita de enormes volumes de água para a refrigeração de seus equipamentos e por causa disso ela sempre é instalada perto de grandes mananciais, como rios e lagos. A termoelétrica pega a água fria do rio e a devolve muito quente ao caudal, cuja água então aquecida é capaz de destruir a sua fauna e flora. Isso é verdade?
Alexandre Chioffetti – O projeto Verde Atlântico Energias, não usará água de rios ou lagos. A água usada no processo de resfriamento da usina será captada e devolvida no mar, como a massa de troca com a água do mar é muito grande, a zona de mistura será pequena e o impacto pequeno. Os dados dessa simulação serão enviados para análise da CETESB.

A empresa está divulgando o impacto positivo para a região, mas, na verdade, no caso da instalação da usina, quais serão os impactos ambientais, sociais e econômicos para a Cidade?
Alexandre Chioffetti – Os impactos, foram diagnosticados durante 18 meses de estudos e todos, tanto positivos como negativos, estão sendo apresentados nos estudos (EIA/RIMA) e têm sido esclarecidos pela Gastrading.
Dos impactos estudados mais relevante e percebidos pela população, pode-se destacar o impacto durante as obras e do ponto de vista socioeconômico a geração de empregos e aumento da arrecadação de tributos.

Quais serão os métodos adotados para a redução destes impactos?
Alexandre Chioffetti – São os programas ambientais, que serão determinados pela CETESB e condicionantes para o processo de Licença de Instalação.

Muito se fala em energias renováveis, segundo pesquisas, o Brasil produz 1% do que pode em energia eólica. São 7 Gigawatts. A estimativa é de um crescimento de 200%, 80 países já construíram suas instalações eólicas. O Brasil segue na contramão deste recurso?
Alexandre Chioffetti – Entendemos que não, o Brasil tem uma boa base eólica instalada e em crescimento, e está começando a instalação de uma base de geração solar. O PDE (Plano de Desenvolvimento Energético) do MME (Ministério de Minas e Energia) aponta o crescimento da matriz energética brasileira com energias renováveis e gás natural.

Que mensagem o Sr. deixa para a população de Peruíbe?
Alexandre Chioffetti – O projeto Verde Atlântico Energias foi elaborado em estrito atendimento a todas as normas e legislação vigente, apresenta viabilidade técnica e ambiental. O processo de licenciamento está entrando em uma nova fase que é a análise do EIA/RIMA pela CETESB e pela população, neste sentido a Gastrading estará promovendo diversas apresentações de esclarecimento, bem como, a CETESB deverá agendar as audiências públicas que são os fóruns adequados de esclarecimentos e proposições.
Por fim, a Gastrading informa à população um e-mail para envio de dúvidas e/ou sugestões contato@verdeatlantico.com.br

 

Veja o que pensam
os favoráveis
a instalação da usina.

 

 

 

Sr. Hugo Sérgio Rosa
Aposentado

“Desde quando surgiu o assunto de se construir em nossa cidade uma Usina Termoelétrica a Gás, eu venho me posicionando favorável a implantação dessa Usina. Tenho convicção que a cidade pode sim caminhar nas duas direções:
1 – Com a construção da Usina que vai gerar energia para movimentar a roda do desenvolvimento, e ainda vai gerar os impostos tão importantes para que os futuros prefeitos de nossa cidade tenha os recursos necessários para implantação das políticas públicas para a população.
2 – A construção da Usina em nada vai impactar no desenvolvimento em nossa cidade com bons projetos na área do turismo, que é a principal vocação de Peruíbe. Entendo que hoje a tecnologia está muito avançada e com isso os projetos nesta área de Usinas Termoelétricas são muitos bons onde se aplica tecnologia de ponta para se instalar um equipamento deste porte.
Hoje no Brasil já temos instaladas mais de 1807 Termoelétricas sendo que 116 delas usam gás natural para serem acionadas, e não temos ninguém reclamando do funcionamento destas Usinas nem da parte da imprensa nem por parte dos ambientalistas que são os mais interessados na preservação do meio ambiente.
Ocorre que em nossa cidade está se fazendo uma campanha muito dura contra a instalação da Usina Termoelétrica em nossa cidade, o que na minha opinião vai na direção contrária ao desenvolvimento de Peruíbe.
Entendo que um bom projeto tanto para a implantação da Usina como bons projetos na área do turismo, a cidade de Peruíbe só tem a ganhar e possamos daqui a algum tempo ser realmente a Cidade do Futuro que todos queremos”.

 

Sr. Cláudio Maya
Comerciante

“Sou favorável á implantação da usina termelétrica no nosso município, prontifico-me de citar apenas os pontos favoráveis. Vamos a eles:
1 – Aumento significativo de empregos diretos;
2 – Aumento da arrecadação tributária para o município, que tem previsão inicial de R$ 9 milhões anuais;
3 – Aumento significativo também na arrecadação de ICMS;
4 – Geração de energia com preço competitivo no mercado;
5 – Crescimento econômico do nosso município.
Sim… sou favorável á implantação da usina, porém, não favorável que se mudem uma vírgula na nossa Lei, para que as mesmas se tornem compatíveis!”

 

Veja o que pensam
os contrários
a instalação da usina.

 

 

 

Eliana Diniz da Colônia de Pesca de Peruíbe é Tecnóloga em
Logistica e Gestão em Empreendimentos de Pesca.

“A minha opinião, a termoelétrica em uma região de preservação como nosso município é uma insanidade. Pois não resolverá o maior problema que é o desemprego. E diminuirá ainda mais a área de atuação para os pescadores que já enfrentam as zonas de amortecimento das Ilhas e da Juréia. Que por Lei Federal já lhe são impostas pelas APAS.
E os beneficiados com este empreendimento, serão ou outros municípios deixando aqui apenas poluição!”

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Carvalho Saes é Tecnólogo em Gestão Ambiental, e um dos organizadores da manifestação contra a termoelétrica. Coordenador de comunicação da página no facebook: “Termoelétrica em Peruíbe NÃO”, comandada pelo CALS – Coletivo Ativista Litoral Sustentável.

“Somos contra a instalação de uma termoelétrica porque primeiro a Termoelétrica não tem nada de sustentável, nós buscamos fontes renováveis energia. Segundo, Peruíbe não permite a instalação de indústrias poluentes. E o terceiro são os acordos internacionais, E o Brasil assumiu o compromisso na COP 21 (Conferência do Clima Paris), de diminuir a emissão de gases do efeito estufa até 2025 de 37% e até 2030 para 43%. Então a instalação de uma termoelétrica vai nos colocar em uma situação crítica aos acordos internacionais.
E outra que a tecnologia empreendida em uma termoelétrica já está ultrapassada, os países de origem já estão abrindo mão desse tipo de tecnologia, buscando fontes renováveis de energia, como eólica, solar, de ondas, então Peruíbe não pode aceitar esse tipo de vínculo tecnológico com o passado”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Principais termelétricas brasileiras

Usina Termoelétrica Euzébio Rocha, em Cubatão, foi inaugurada pela Petrobras em 2010, a usina é a mais recente usina a gás natural do parque gerador brasileiro a fornecer energia para o Sistema Interligado Nacional (SIN) e opera em ciclo combinado, gerando energia também a partir do vapor. Foto: Petrobras.

Atualmente, o Brasil possui quase 2 mil usinas termelétricas, responsáveis pela geração de aproximadamente um quarto da capacidade total do País. Em São Paulo, destaque para a Usina Piratininga — com potência de 190 megawatts —, Açucareira da Serra (localizada entre as cidades de São Carlos e Ibaté) e Euzébio Rocha — em Cubatão.
Em Capivari de Baixo, Santa Catarina, está localizado o maior complexo termelétrico movido a carvão da América Latina: o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, formado por três usinas térmicas movidas a carvão, com capacidade instalada total de 857 megawatts.
A Usina Termelétrica de Juiz de Fora, em Minas Gerais, foi a primeira do mundo a operar com etanol. Com potência instalada de 87 megawatts, o parque gerador foi responsável pela produção média de 4.761 megawatts por dia. No mesmo estado, funciona a Ibitermo, instalada no município de Ibirité desde 2002.
Na Paraíba, a Usina Termelétrica Campina Grande funciona como reserva energética, entrando em operação apenas quando ocorre falha no sistema elétrico da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Possui dez geradores em ciclo térmico simples.
Outra usina importante da região nordeste é a Vale do Açu Jesus Soares Pereira, mais conhecida como Termoaçu. Localizada em Alto do Rodrigues, no Rio Grande do Norte, é um exemplo de cogeração, uma vez que produz energia elétrica e vapor d’água — utilizado na extração de petróleo da região. Cujo combustível é o gás natural.
Fonte: Tecnogera

One thought on “Termoelétrica em Peruíbe: Polêmica e insegurança!

  • 12 Abril, 2017 at 13:02
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    TERMOELÉTRICA EM PERUÍBE, JOVENS E O FUTURO

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